O Escândalo Da Cruz

2021-04-02
Espiritualidade

Nossos pai espiritual e patrono de nossa obra, São Pio de Pietrelcina, sentiu e viveu em todos os dias de sua vida a Paixão do Senhor, mas de modo especial, nestes dias do tríduo pascoal, mergulhava no sentido misterioso da morte de Cristo na Cruz, agradecendo a Deus, em adoração, a nossa redenção e assim exortava a seus filhos espirituais:

“Imitemos o Coração de Jesus, especialmente na dor, e assim nos conformaremos cada vez mais e mais com este coração divino para que, um dia, lá em cima no Céu, também nós possamos glorificar o Pai Celeste ao lado daquele que tanto sofreu”.

Santo Anselmo, nos seus escritos teológicos, interroga-se: “porque é que Deus teve de se fazer Homem?

Mas esta pergunta adquire dimensão dramática nesta outra: “porque é que Deus sujeitou à morte o Seu Filho Jesus Cristo?

Não tinha Deus declarado no Tabor: “Este é o Meu Filho muito amado?

Porque é que lhe aprouve, como diz o Profeta Isaías, “esmagar o seu Servo pelo sofrimento?

Porque não atendeu a prece dramática do Seu Filho, no Getsêmani: “Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice”?

São Paulo, que na primeira Carta aos Coríntios reconhece que a morte de Cristo na Cruz era um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios, mas que se tornou, para nós que fomos chamados a seguir Jesus Cristo, em potência e sabedoria de Deus (cf. 1Co. 1,23-24), verga-se, em contemplação, perante esta insondável sabedoria de Deus:

“Oh abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como os Seus decretos são insondáveis e os Seus caminhos incompreensíveis” (Rom. 11,33).

De fato, só de joelhos, na humildade da nossa fé, podemos contemplar a Cruz de Cristo e impedir que ela não seja para nós um escândalo, algo de tão violento e incompreensível que nos leve a duvidar da bondade e da justiça de Deus.

O caminho mais seguro para penetrarmos no sentido da morte de Cristo, querida por Deus para o Seu próprio Filho, é acompanhar Jesus na maneira como Ele a vive e aceita. Na conversa com Nicodemos, Jesus afirma:

“Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que acredita nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3,16).

É, portanto, uma loucura do amor de Deus pelo mundo que criou. Deus não pode aceitar que o mundo pereça e perca a vida eterna. Trata-se de vencer o mal na sua raiz, o que só pode ser realizado pelo amor de Deus, o mesmo com que criou o mundo. E esse amor de Deus só pode resgatar a humanidade desviada, se puder exprimir a profundidade do Seu amor de Pai pelo Seu Filho, num coração humano, o coração de Cristo, Verbo encarnado.

No Calvário, Deus, para amar o mundo, não deixa de amar o Seu Filho, que na Sua humanidade, assumiu todo o mal do mundo. Na Cruz, o amor entre o Pai e o Filho é o mesmo amor eterno que criou o mundo, porque só assim o pode recriar.

Jesus tem, desde sempre, uma consciência viva do modo como se concluirá a missão que o Pai lhe deu. A aceitação da vontade do Pai é expressão de obediência filial, na densidade do amor trinitário:

“Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade” (Mt. 26,42).

“Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento” (He. 5,8).

A Pedro que tenta reagir à prisão de Jesus com a espada, Jesus diz: “mete a tua espada na bainha. Não haverei de beber o cálice que Meu Pai me deu?” (Jo. 18,11).

Na Paixão, Jesus homem exprime o Seu amor ao Pai na aceitação do sofrimento e da morte. A Sua última palavra “tudo está consumado” (Jo. 19,30) é o reconhecimento consciente de que a vontade do Pai se cumpriu até ao fim. Amar no sofrimento e na obediência é a atitude nova que a morte de Cristo lega à humanidade, caminho para a redenção do sofrimento inevitável.

A Cruz é um ato de amor de Deus Pai pela humanidade que criou; é um ato de amor de Jesus por Deus, Seu pai, concretizado na obediência à vontade divina. Mas por que a morte? Por que ir tão longe? Trata-se de vencer radicalmente o mal e exorcizar a morte, inserindo-a no dinamismo da vida e da esperança.

A relação entre o pecado e o sofrimento e a morte, é continuamente expressa na Sagrada Escritura. São Paulo resume toda essa tradição na Carta aos Romanos:

“Assim como por um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, assim a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram” (Rom. 5,18).

Só fazendo da morte uma expressão do amor supremo, do amor criador, o sentido da morte humana pode ser redimido.

A morte de Cristo como expressão do amor eterno restitui ao sofrimento humano a possibilidade de ser expressão do amor. O homem toca a sua plenitude quando na sua vida, na sua liberdade, Deus, que quer a comunhão com ele, pode ser completamente Deus.

Na obediência de Cristo até à morte na Cruz, Deus é completamente Deus numa liberdade humana. A Redenção consiste na restituição ao homem de permitir, pela sua obediência, que Deus seja Deus na sua vida, como escreve Paulo aos Filipenses:

“Tende entre vós os mesmos sentimentos de Jesus Cristo: Ele, de condição divina, não guardou ciosamente essa situação que o igualava a Deus, aniquilou-se a Si Mesmo, tomando a condição de escravo, tornando-Se semelhante aos homens. E comportando-se como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e à morte na Cruz”.

Esta humilhação do Filho permitiu a Deus exercer todo o Seu poder, “exaltando-O e dando-Lhe o nome que está acima de todos os nomes” (Fil. 2,5-9).

Ao contemplarmos a Cruz, descubramos o mistério e a missão de sermos no mundo, fermento de Redenção. Somos chamados a viver no sofrimento o que falta à Cruz de Cristo. Mas faltou alguma coisa à Cruz de Cristo?

Falta a nossa parte, a vivência da obediência do Filho pelo Seu corpo, que é a Igreja e que, no desígnio de Deus, faz parte do sacrifício total para a redenção do mundo. Adorando a Cruz, assumamos a nossa missão de co-redentores.

Sigamos o exemplo de nosso amado Padre Pio que não buscou nem fama nem dons extraordinários. Ele somente pedia pelo sacrifício e anonimato. Freqüentemente dizia, “Eu somente quero ser um pobre frei que reza“.

Deus ordenou o contrário. O nome deste humilde frei que, sofreu tanto pelas almas tendo vivido assim como Jesus o amor completo ao Pai, a ponto de aceitar os estigmas e o sofrimento das dores da paixão por 50 anos, está inscrito na lista de honra dos Santos da Igreja. No Céu, onde ele está para sempre unido com Jesus e Maria, que o guiaram em sua missão de compartilhar a Paixão de Cristo e ser o “pai” das almas, ele continua a rezar por nos pobres pecadores.

Vamos também, confiando em Cristo Ressuscitado, rezar por nós e nossos irmãos, dizendo todos os dias de nossas vidas:

“Senhor, eu creio que estais vivo entre nós, participando de nossas lutas e alegrias. Creio que, vivendo unido a vós, não preciso ter medo do mal, posso fazer o bem, posso ser útil para o bem e a felicidade de todos. Imagino a alegrias quando vos viram ressuscitado. Eu também me alegro, Jesus, porque vencestes a morte, e estais sempre conosco. Quero levar essa alegria para todos, para que vençam o medo e o desanimo. Amém”.