Pentecostes

Igreja: Fruto do Pentecostes

2020-05-31
Espiritualidade

Num primeiro momento o Espírito Santo desceu sobre a Virgem Maria para fazer com que Deus se tornasse homem, humano. No dia de Pentecostes o Espírito Santo pousa, sobre uma mulher, uma nova esposa – a igreja – para que nela o humano se torne divino. Em Maria, o Espírito Santo desceu para que o Divino se tornasse humano e no dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu para que o humano se tornasse divino para que a partir daquele dia, a igreja, ainda que fosse uma realidade humana se tornasse também criação divina.

A igreja não é nem uma invenção, nem uma criação do homem. A Igreja é uma criação divina. Não é uma instituição humana, é uma instituição divina porque no dia de pentecostes o Espírito Santo desceu para fazer o humano se tornar divino e eterno.
Naquele dia, o Espírito Santo desceu no ventre de uma nova esposa, que não era Maria, mas a Igreja, para gerar nela filhos, novos filhos de Deus, para que no seu ventre a humanidade se tornasse divina.

O Espírito Santo vem para dar ao humano uma realidade divina e a partir daquele momento a Igreja nasce. A esposa do Espírito Santo é fecundada para ser a mãe de filhos gerados para Deus e desde aquele Pentecostes até hoje ninguém pode destruir e jamais destruirá a esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja. Desde aquele dia a Igreja jamais deixou de gerar filhos para Deus. Filhos no Filho, que é Jesus Cristo – co-herdeiros do herdeiro que é Jesus Cristo.

Nesta grande benção, que é a festa de Pentecostes, Jesus Cristo atualiza suas promessas quando disse: “Eu vos enviarei o Espírito Santo e Ele vos recordará de tudo o que Eu disse, tudo que Eu vos ensinei, tudo o que eu falei”. “Eu não vos deixarei órfãos”. A beleza surge em contemplar a história de mais de 2000 anos de caminho, onde nem impérios, nem poderes, nem forças jamais conseguiram destruir a criação que é de Deus, a Igreja. E jamais irão destruí-la. Nem os seus próprios membros, nas suas fragilidades, nas suas fraquezas puderam destruí-la porque o Senhor sempre fazia brotar nela filhos novos e santos e a renovava na pureza de uma filiação santa e divina.

Nós vivemos uma grande ilusão no mundo moderno. A ilusão de eficiência humana. A palavra eficiência não deixa de trazer consigo uma ilusão. Sabemos que todas as ciências, no seu avanço de perfeição tentam dar ao homem, enquanto criatura deste mundo e neste mundo, um desenvolvimento, um aperfeiçoamento. Contudo essa eficiência humana não dá ao homem a perspectiva de eternidade. Não contempla a sua transcendência e a sua realidade transcendental, a sua imortalidade. A eficiência humana contempla a temporalidade humana, a eficácia de métodos e meios para a realização do ser humano durante a sua história terrestre. A eficiência humana não visa outro valor senão o valor do humano. Com a descida do Espírito Santo acontece toda a diferença, transformando o humano em divino. E ao tornar o humano divino, dá aos homens a perfeita verdade.

São Paulo explica isso ao nos mostrar que estamos vendo as coisas, como um espelho, refletimos essa realidade como um espelho, mas um dia veremos Deus face a face. Nós nascemos para viver no reino dos céus, mas o evangelho nos fala da dificuldade de nascer para este reino. O Espírito Santo nos faz natos para o reino de Deus. Como Jesus disse a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo os meus soldados estariam aqui para me defenderem”. O erro da eficiência humana é justamente projetar um bem para este mundo, na sua temporalidade. E esta eficiência humana pode penetrar em todos os setores da vida e até da vida religiosa. De repente aquilo que é da vida religiosa começa a adquirir o sentido de uma eficiência humana, de uma eficiência secular, de um bem humano.

No século IV houve um sacerdote chamado Pelágio que colocou a primazia da capacitação humana como uma força em si mesma, de alcance das realidades sobrenaturais. E Deus, como faz sempre na história e diante daquele erro falou através da boca de Santo Agostinho dizendo: “Não! Isto está errado! É só a graça de Deus que pode socorrer o ser humano”. Isto nos mostra como é verdadeira a palavra de Jesus Cristo no capitulo 15 do Evangelho de São João, quando diz: “Sem mim vocês não podem fazer nada”. Jesus fala de uma forma absoluta, claríssima – Sem mim, vós não podeis nada. E Santo Agostinho é verdadeiro ao dizer que é só a graça confirmando o que já dissera o grande apóstolo: “O que eu sou, sou pela graça de Deus”.

A eficiência humana é uma ilusão nesse sentido, no sentido que contemplamos a própria divinização do humano. E justamente a Festa de Pentecostes traz a todos nós essa grande realidade. E assim nós podemos dizer que o primeiro Pentecostes foi no ventre de Maria. Estou fazendo uma interpretação pessoal, própria, minha, meu pensamento. Eu comparo que o primeiro Pentecostes foi no ventre de Maria. Naquele primeiro Pentecostes o Espírito Santo fez Deus se tornar humano. No segundo Pentecostes não foi no ventre de Maria, foi no ventre de uma nova realidade, que não existia, que se chama Igreja. Neste segundo Pentecostes, o Espírito Santo fez o humano se tornar divino.

Por isso todo processo humanizador é um processo repleto de dinamismo divino. Quanto mais a criatura se humaniza, mais ela é divinizada. Quanto mais divinizada, mais humanizada. Ao perder os valores espirituais acontece o processo desumanizador. Não estamos nos referindo aqui à religião em si, mas aos valores espirituais, valores transcendentais. São esses os valores humanizadores e que trazem ao ser humano a capacidade de transcender, ou seja, fazer seu ser humano cada vez mais se plenificar de valores que ultrapassam sua própria humanidade.

Esses valores não o incapacitam de experimentar a fragilidade, mas dão a oportunidade de progresso, de desenvolvimento. Quando o homem perde esse referencial, há o retrocesso, há a desumanização. E a desumanização é o que leva para a destruição de muitos valores de nossa vida – a desagregação familiar, a violência, o ódio, o racismo, essa violência que mata, que fere, que destrói tantas vidas, essa realidade tão difícil da autodestruição pelas drogas, pela alienação, por grupos radicais de violência ou de qualquer outro comportamento. Isto marca o processo de desumanização.

A desumanização chega ao seu auge no episódio da Torre de Babel. As pessoas perderam a total capacidade de se expressar. O primeiro passo do ser humano é a comunicação. Na Torre de Babel as pessoas foram ficando desumanizadas porque fizeram um projeto distante do projeto de Deus, desumanizaram-se e não podiam mais compreender o que uma dizia a outra. Elas perderam a capacidade de comunicação e houve a confusão das línguas.

No dia de Pentecostes o que o Espírito Santo realiza? Realiza o primeiro processo humanizador mais básico, estrutural possível, que é o processo da comunicação. Houve pessoas de várias línguas, de vários países, de várias regiões, portanto falando línguas diferentes uns dos outros, mas aos ouvirem os Apóstolos cada um entendia na sua própria língua. Por quê? Porque quando Deus diviniza o humano, Ele permite a primeira experiência humanizadora, que é a comunicação. É a capacidade de um entender o outro, um acolher o outro. É o primeiro passo para os laços de solidariedade, de fraternidade. É o acolhimento do Verbo, O Verbo acolhido no ventre da Virgem, o Verbo acolhido no coração de cada ser se torna Verbo para o outro.

Quando o Espírito Santo desceu sobre todos, todos receberam o Verbo, ou seja, todos receberam a palavra e quando receberam a palavra não havia mais a barreira das línguas. É o contrário do que aconteceu com a Torre de Babel.

O primeiro milagre do Espírito Santo no dia de Pentecostes foi fazer com que a barreira da não comunicação fosse destruída porque o Espírito Santo é amor, é comunicação. O Verbo é entendido na diversidade das culturas, das ações, das raças.

Esse é o milagre. A Igreja é esse milagre. Hoje, no mundo, povos e culturas munidos pelo mesmo Espírito tem uma linguagem que os une. Há um Verbo comum descido sobre todos nós. Nossa humanidade divinizada se torna única no coração de Deus, sem barreiras, sem fronteiras.

O grande desafio é entender que o nosso coração só tem um dono e esse dono é Deus. Não pode ter outra riqueza como finalidade existencial, como meta existencial. Nós somos chamados ao despojamento, a uma pobreza evangélica. Não podemos fazer dos bens materiais a finalidade de nossa vida. E nem os Bens materiais podem ocupar o lugar de Deus em nosso ser. Nem as pessoas. O nosso coração só tem um dono, que é Deus. As pessoas são hospedes de nosso coração. Mas o único dono é Deus. Os bens materiais são meios que Deus nos dá para que possamos amá-Lo mais e ao próximo mais. Contudo somente Ele é o único senhor absoluto de nossa vida. Esse é o primeiro mandamento vivido na prática – Amar a Deus em primeiro lugar, com todo o coração, com todo o nosso ser. Tudo é Dele. Tudo é consagrado a Ele. Tudo pertence a Ele. Não há lugar para outro bem. E assim Jesus nos recorda: “Não junteis para vós tesouros na terra, mas junteis tesouros no céu”. Há de ter algo mais importante que o ouro e a prata! Os bens materiais têm uma finalidade porque são meios. Não a finalidade da nossa vida, nem da nossa existência efêmera e passageira.

Somos chamados, portanto, a permitir que o Espírito Santo nos dê um coração virgem, um coração pobre. Significa que nós devemos destinar todo o nosso ser a Deus, como prioridade. É o primeiro mandamento. Somos chamados também a sermos imaculados para que o Espírito Santo possa fecundar a nossa vida e gerar em nós o próprio cristo. É assim que o Pentecostes acontece. O Espírito Santo vem sobre nós, sobre o nosso ser, que deve ser puro, imaculado, santo e em nós Ele fecunda o Verbo. E Jesus continua vivo em nós. Jesus continua obediente ao Pai em nós. Jesus continua em nós a obra redentora. Jesus continua em nós a fazer a vontade do Pai, por esta ação do Espírito Santo. Porque continuamente o Espírito Santo vai gerando o Cristo em nós Igreja, em nós esposas do Espírito Santo até a consumação, até quando serão celebradas as núpcias finais com o Cordeiro de Deus na Jerusalém celeste.

Até aquele dia nós estamos vivendo a hora do Espírito Santo. O Pai criou – já fez sua missão. O Filho salvou, redimiu – já fez sua missão. Agora é a hora do Espírito Santo. O Espírito Santo está nos santificando. Está adornando a esposa para o esposo, está preparando a esposa para o esposo, esta santificando a igreja para que ela seja imaculada, pura, hóstia perfeita e pura, como está na Carta aos Romanos, no capitulo XII. Para que nós sejamos também santos, puros, imaculados juntamente com ela.

Nós somos a própria igreja. Cada um é a igreja para que um dia possamos realmente completar, realizar totalmente o sentido para o qual fomos gerados desde toda a eternidade. Para sermos para sempre em Deus e Nele subsistir eternamente como realização do ser humano. Não somos animais sem alma. Somos seres humanos, filhos de Deus, gerados por ele, Nele concebidos para existirmos eternamente. Por isso Pentecostes, por isso, plenificados pelo Espírito Santos iremos continuar a missão do próprio Cristo neste mundo e levar desde o nosso batismo até a nossa morte os sinais do próprio Cristo vivo em nosso ser. Para que outros conheçam o Cristo e O conhecendo possam também eles experimentar essa graça de serem tocados, divinizados e humanizados e serem no mundo fermento, que faz essa massa disforme, desumana, se tornar novamente humana e divinizada. Por nós, que somos chamados a sermos sal e luz para este mundo.

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